Ao Mestre com carinho

Ao Mestre com carinho

“A morte não é nada, eu somente passei para o outro lado do caminho”.
Santo Agostinho.

Um dia qualquer do ano de 1980 conheci Aroldo Murá. Era uma entrevista de emprego no jornal A voz do Paraná, na rua Alberto Foloni, onde ficava a Editora João XXIII. Ali trabalhei por 2 anos como contato de publicidade. Dois anos que pareceram 20, tamanho o aprendizado e, tamanha a amizade desenvolvida.

Um belo dia entrei em sua sala com o jornal “O Globo” nas mãos, meio que em lágrimas e disse a ele – “Professor, passei em medicina no Rio de Janeiro”, e ele pasmo, me disse – “Vou perder meu contato de publicidade mas vou ganhar meu futuro médico”.

Nos seis anos da faculdade, tempos financeiros difíceis e ele sabia, então, de vez em sempre eu recebia um cheque, via correio, junto com uma carta incentivadora.

Como eu, muitos receberam as dádivas da bondade do professor Aroldo. “Adotava” as pessoas que escolhia e isso lhe dava muita alegria dentro de seus firmes propósitos católicos. Caridade era o que mais fazia, principalmente em épocas de “vacas gordas”. Viajava sempre para os EUA e trazia presentes que ia acumulando até o Natal, quando reunia seus amigos e “afilhados” em seu apartamento na Av. 7 de Setembro, e a todos presenteava. O mais bonito era ver o brilho nos seus olhos, transbordava ele em alegria por proporcionar aquele momento mágico.

Em 1990, já formado, retornei para Curitiba, e a partir de então, tive a honra e o privilégio de ser seu médico, conforme ele havia profetizado. Nunca mais nos distanciamos. Ele gostava da minha escrita, tinha visto através de uns versos que certa vez submeti a ele para correção do português. Me convidou para ser colunista do jornal Ciência e Fé, onde escrevo até hoje. Me indicou também para ser colunista da Revista Ideias, de seu amigo Fábio Campana, onde fiquei até o encerramento das atividades da revista.

Às vezes eu o convidava para jantar e, após marcações e remarcações pela dificuldade da sua agenda e pelo controle do diabetes, conseguíamos e, invariavelmente, íamos na Cantina dos Açores, no Juvevê, ele adorava o bacalhau servido com grão de bico cremoso.

Só tenho lembranças maravilhosas ao seu lado. Aprendizado constante pautado, não só nas palavras, mas, principalmente, no exemplo.

Um dia foi agraciado pelo Universo com um presente, um anjo sem asas que surgiu em sua vida, Hélio de Freitas, seu fiel escudeiro, o verdadeiro “faz tudo” que muito lhe ajudou até os últimos dias.

Dentro da sua infinita bondade, não bastasse todos os “afilhados” que possuía, um dia deu o seu nome, como pai, para que constasse na certidão de nascimento, daquele que também era seu outro fiel escudeiro, Fábio Leite. Onde havia pai desconhecido, colocou-se Aroldo Murá Gomes Haygert. O não reconhecimento do pai biológico do Fabio, deu-lhe a oportunidade de ter um “verdadeiro” pai.

Nos últimos tempos, aos ser detectado um tumor em seu pâncreas, associada a outras doenças de base, sua saúde ficou comprometida. Teve a dedicação da Dra. Rayssa Sena, filha de meu amigo e médico, Antônio Sena. Rasgava elogios à ela, admirado por sua pouca idade e tamanha qualificação. Morreu sob seus cuidados no Hospital São Vicente, onde, em uma das minhas últimas visitas, me contou toda história do hospital, com detalhes que sua memória prodigiosa não deixava escapar.

No jornalismo ficará uma lacuna irreparável, mas na vida, fica uma ausência física de alguém gigante, que tinha que ter todo aquele tamanho, senão o coração não lhe caberia ao peito.

Nessas poucas linhas deixo todo o meu respeito, amor e admiração por essa pessoa que deixou indelevelmente marcados nossos corações.

EDMILSON MARIO FABBRI – Instituto Ciência e Fé
ANO 24 – Nº 272 – JAN 2023

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