Viver Filosoficamente

Viver Filosoficamente

Quando optei por estudar filosofia, anos atrás, após me formar em medicina, foi como razão principal, tentar incorporar, não só na minha vida pessoal uma maneira filosófica de viver, mas, também, na minha vida médica. Entendia eu, que essa formação me traria melhor compreensão e entendimento daquele ser humano, que em algum momento atende pelo nome de paciente, quando está refém de suas dores e mazelas.

Meu intuito não era decorar nomes, datas e tratados, vomitando-os em ataques de erudição. Meu desejo era beber das mais diversas fontes de sabedoria que as múltiplas escolas filosóficas produziram.

Não foram poucas as vezes em função disso, que confundi Cipião Emiliano (c.185 – 129 a.c) com Cipião Africano (236 – 183 a.c).

Mais importante do que saber que na sua obra “Ensaios”, Montaigne cita Platão 128 vezes, Lucrécio 149 e Sêneca 130, era absorver dele, Montaigne, sua simplicidade e a maneira honesta e indefesa que usava para auto retratar-se quando dizia sobre o fato de ter flatulência e às vezes impotência, e da sua necessidade de tranquilidade quando precisava ir ao banheiro. Sempre colocou-se em uma condição humana primária, que o aproximava de nós humildes mortais, ao invés de revestir-se do verniz que a soberba poderia tê-lo contaminado.

Ao invés disso, era tão avesso aos aspectos da erudição, que uma das suas mais agudas críticas foi dirigida à Cícero, quando este, em um trecho de sua obra “Controvérsias Tusculanas”, engrandecia-se e também a todos os cultos da época dizendo – A cultura nos dá acesso a uma vida agradável e feliz, ela nos ensina como viver sem dissabores e aflições. – Montaigne não se conteve ao ler esse disparate e disse – Como ousa jactar-se assim…?, na prática, milhares de mulheres humildes que vivem nas aldeias levam uma vida mais tranquila, mais equânime e leal do que ele, (Cícero), levou.

LIÇÕES DA FILOSOFIA

Além das lições de humildade e humanidade como nos ensinou Montaigne, a filosofia pode nos dar lições de serenidade absoluta diante da morte, como nos exemplos vividos por Sócrates e Sêneca, o primeiro, condenado injustamente por um tribunal pelo fato de manter-se fiel a busca da verdade, exortando a todos que cruzavam seu caminho a também buscá-la, bebe tranquilamente o cálice cicuta diante de seus amigos e de sua esposa em desespero. Já Sêneca, preceptor e conselheiro de Nero foi condenado por este a pena capital em um de seus últimos atos de loucura, sentado a beira de seu leito de morte, ao ver seus amigos chorando em desespero lhes interroga – onde está sua filosofia?, O que foi feito da decisão de jamais se deixarem abater diante da iminência de qualquer desgraça, que durante anos, todos têm incentivado uns aos outros manter a filosofia?

Através de Epicuro, criador do hedonismo, nos trouxe o valor da amizade e todas as possibilidades de uma vida feliz ligada ao prazer. Uma de suas máximas era “Assim como a medicina não nos traz benefícios se não liberta os males do corpo, o mesmo sucede com a filosofia, se não liberta dos sofrimentos da alma”.

Assim, através de uma tentativa de levar uma vida minimamente filosófica, ligada a sua prática, me sinto, hoje, um ser humano um pouco melhor do que já fui outrora. Finalizo citando Sófocles que simplifica tudo dizendo “Viver feliz é não pensar em nada”.

Dr. Edmilson Fabbri para a Revista Ciência e Fé – Ed. 251 – FEVEREIRO 2021

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